Fahrenheit 451 e a censura


O último livro que li foi o Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, um livro que leva a censura a um nível extremo e, aproveitando a comemoração do 25 de Abril, achei que era uma boa altura para partilhar umas ideias.

Antigamente, e não há tanto tempo quanto isso, os autores tinham de ter atenção àquilo que escreviam e como o escreviam. A censura podia proibir os seus livros de serem vendidos ou publicados pelos motivos mais irrisórios. Na disciplina de História do Livro pude ver livros que foram censurados pelo Estado Novo simplesmente por passarem a ideia de que ninguém deve ser deixado para trás e de que juntos somos mais fortes. Claro que estas ideias não eram favoráveis à ditadura e portanto nunca poderiam ver a luz do dia.

Apesar de ter sido uma época que os portugueses nunca vão esquecer, houve alturas em que a censura tomou proporções ainda mais preocupantes. No tempo em que a Igreja controlava não só a religião mas também a política, muitos foram os livros censurados e, alguns, até destruídos. Tudo o que fosse contra a política da Igreja ou que expressasse ideias contrárias tinha de ser eliminado. Portanto, a censura não é novidade e não podemos dar por garantida a “liberdade” de expressão que julgamos ter.

Num mundo moderno, onde cada pessoa deveria ser livre para desenvolver os seus próprios pensamentos e ser capaz de defender as suas ideias, não é bem isso que acontece na prática. As pessoas dizem que cada um é livre para escolher aquilo que gosta e para pensar da maneira que entender, mas quando aparece alguém com um pensamento contrário ao delas, é deitado abaixo e excluído. Alguém que não oiça as músicas da moda ou que não se vista conforme os parâmetros estipulados por alguém desconhecido é estranho e tratado de maneira diferente. As pessoas acham que a censura já não existe, mas será verdade?

É verdade que hoje em dia já não existe uma polícia que proíbe certos temas de chegarem ao público, mas a literatura e a música continuam a ser censuradas de uma forma mais subtil. Muitos artistas são acusados de apropriação cultural, de defender ideias que não são as aceites pela sociedade; muitos escritores são acusados de abordarem temas que podem chocar ou ofenderem susceptibilidades, … Alguns livros de séculos passados estão a ser revistos porque a sociedade diz que são ofensivos por retratarem de forma negativa os tempos da escravatura. Mas esses tempos não foram negativos? Porque é que um livro que descreve fielmente os acontecimentos dessa época deve ser alterado ou adaptado à sociedade em que vivemos atualmente? Não podemos apagar da nossa história momentos que foram menos bons só porque nos envergonhamos deles ou porque ainda existem pessoas que sofreram com eles. São estes testemunhos que nos fazem aprender e nos ajudam a lembrar aquilo de que somos capazes, seja bom ou mau. O Homem é capaz de cometer crimes horrendos contra ele próprio, mas ocultar as provas desses crimes não é a solução, são estas provas que nos permitem perceber onde errámos e onde podemos melhorar.

Vamos banir os livros sobre o Holocausto porque é um momento do qual os alemães não se querem lembrar e porque os livros mostram demasiados pormenores sobre os horrores passados pelos judeus; vamos censurar livros da altura da escravidão porque a realidade dos escravos é demasiado chocante para a nossa sociedade ou porque os pretos são retratados como coisas e não como pessoas pelos seus senhores, mas esta era a realidade e a mentalidade da época; vamos censurar menções à altura da Inquisição porque é outro momento menos feliz da Humanidade e da Religião, porque os terroristas são os muçulmanos e não os cristãos; e a lista poderia continuar sem nunca chegarmos a um consenso.

Há livros que chocam certas pessoas e há livros que abordam momentos delicados que nos fazem arrepiar e sentir vergonha daquilo que a nossa espécie é capaz de fazer, mas não faz sentido querermos alterar esses livros. Se censurarmos um livro que eu não gosto e censuramos outro porque o meu vizinho não gosta, acabaríamos por não ter livros no mundo, porque nunca vai existir um consenso global. Esta realidade é descrita de forma brutalmente honesta no livro Fahrenheit 451, onde os livros são queimados e quem os possui presos porque analisar os livros um a um à procura de temas que pudessem ser ofensivos era exaustivo e, por isso, queimam-se todos e o problema acaba.

Nunca vamos gostar todos do mesmo, nunca vamos partilhar todos das mesmas ideias, nunca vamos gostar das mesmas músicas ou das mesmas pessoas, mas podemos respeitar-nos uns aos outros sem exceder limites e sem ofender o próximo. A liberdade de expressão é algo muito sensível, demasiado até, e não a podemos tomar como garantida nunca e esconder os crimes do passado não faz com que não tenham acontecido, se aconteceram vamos aprender com eles e fazer o que estiver ao nosso alcance para que não se repitam.




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