Traduzir títulos: manter ou ser criativo?
Traduzir títulos nunca é
fácil. Quer se trate do título de um filme ou de um livro, há sempre dois
aspetos a ter em atenção: o significado e a publicidade.
É importante escolher um
título que transmita o significado do texto ou que, pelo menos, faça alguma
alusão ao mesmo e por isso, muitas das vezes, o título original é traduzido à
letra. No entanto, nem sempre isso acontece, quer seja porque a tradução literal
não faz sentido na língua de chegada, ou por não ser apelativo o suficiente.
Também se pode dar o caso de a editora não querer pagar direitos de autor pelo
título original, mas isso já são outras questões…
Os títulos podem ser sugeridos
pelos tradutores, mas como têm de apelar às vendas, podem ser aceites,
rejeitados ou sugeridos pelos próprios editores. E como nem todos os editores
pensam da mesma maneira e a tradução é subjetiva, o mesmo livro pode ter
títulos diferentes. Assim, vou mostrar alguns exemplos e, entre parêntesis, vou
colocar o nome da editora para saberem as minhas fontes e qual editora escolheu
qual nome.
No caso do clássico To Kill a Mockingbird, de Harper Lee
existem três títulos traduzidos para Português. Para o Brasil, este livro chama-se
O Sol é Para Todos (José Olympio),
mas, em Portugal, existem dois títulos disponíveis: Por favor, não matem a cotovia (Difel) foi o primeiro e o mais
recente é Mataram a Cotovia (Relógio
D’Água).
Com Catcher in the Rye, de J.D. Salinger, o caso é parecido.
Existem as traduções Uma Agulha no
Palheiro (Livros do Brasil), À espera
no centeio (Quetzal Editores) e O
Apanhador no Campo de Centeio (Editora do Autor).
Ainda mais traduções existem
para o título Animal Farm, livro de
George Orwell. No Brasil, este livro é conhecido como A Revolução dos Bichos (Companhia das Letras). No entanto, só em
Portugal, existem três opções diferentes: O
Porco Triunfante (Popular, 1946), O
Triunfo dos Porcos (Perspectivas e Realidades, 1976) e A Quinta dos Animais (Antígona, 2008). O título que mais tempo
esteve disponível e que foi usado por mais do que uma editora foi O Triunfo dos Porcos, no entanto, A Quinta dos Animais é o que, na minha
opinião, melhor se adequa á história e, sendo igual ao título original, escolhido
pelo autor, tem a sua creditação.
Para além dos clássicos, que
têm um peso maior na literatura, também os títulos dos livros comerciais têm de
ter uma tradução atenta, principalmente pelo marketing. Vou dar apenas dois exemplos
de livros comerciais, usando o famoso romancista Nicholas Sparks. O seu livro,
que mais tarde foi adaptado ao cinema, Dear
John, foi traduzido para Querido John
(Novo Conceito), no Brasil, e para Juntos
ao Luar (Presença), em Portugal. Neste caso, penso que a versão de Portugal
perdeu o significado escondido no título original. A história baseia-se em
cartas que ambas as personagens escrevem e daí o Dear John, o começo das cartas. Em Portugal, este sentido perdeu-se
na tradução. Num outro livro chamado Message
in a Bottle, as traduções ficaram As
Palavras Que Nunca Te Direi (Presença), em Portugal, e Uma Carta de Amor (Arqueiro), no Brasil.
Tal como já referi, as
traduções dos títulos têm muitos aspetos a pesar na sua escolha e, como
acontece na maioria das traduções, corre-se o risco de algum significado
subentendido do original se perder. Muitas vezes são usados jogos de palavras
que não são possíveis de traduzir fielmente e o tradutor e o editor têm de
arranjar alternativas. Outras vezes, é simplesmente uma escolha preocupada com
as vendas ou com o público-alvo. Este pode ter sido o caso do livro To Kill a Mockingbird; “Matar a Cotovia”
seria considerado demasiado agressivo? Ou no caso do Harry Potter and Half-Blood Prince; “Príncipe Meio-Sangue” seria
demasiado estranho para as crianças?
O importante é conhecer bem a história antes de escolher um título, pois este deve estar sempre relacionado com o que se vai passar no livro, principalmente se o título original não for traduzido à letra e se tenha de "inventar" um. Mesmo sendo inventado, o título tem de fazer sentido.
Vou ficar por aqui porque se
me alongar ninguém vai querer ler isto até ao fim… Mas fico à espera de
sugestões e, quem sabe, daqui a uns tempos faça a parte II de títulos
traduzidos!

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