Notas de rodapé
Na minha última aula de Técnicas de Edição discutimos sobre
notas de rodapés e, apesar de também ter falado sobre elas durante a
licenciatura, continua a ser um assunto um pouco controverso.
As notas de rodapé podem ser úteis aos tradutores quando há
termos ou expressões que não têm correspondente na língua de chegada e que são
imprescindíveis para o sentido do texto. Estas notas são muito utilizadas em
textos científicos e históricos, mas costumam ser mais contidas nos livros de
ficção. No entanto, há umas semanas li um romance policial com tantas notas de
rodapé que me fez questionar se realmente as notas me ajudaram na leitura ou
não.
No livro A Dália
Negra (2006: Editorial Presença), de James Ellroy, todas as palavras foram
vistas como potenciais candidatas a nota de rodapé. A história do livro segue
dois polícias e retrata a sua vida na esquadra enquanto investigam um homicídio
macabro. Muitos dos departamentos da polícia são mencionados em siglas e todas
elas são “desvendadas” em notas de rodapé. Não quero soar arrogante,
provavelmente sem ajuda não saberia o que significam, mas o tradutor podia ter
simplesmente escrito o nome dos departamentos no texto e tinha poupado o
trabalho ao leitor de ir até ao fim da página, quebrando o raciocínio da
leitura, para descobrir o significado daquelas três letrinhas.
Outra nota de rodapé que acho ser desnecessária surge na
página 61 e que está associada à expressão “como se estivéssemos a dançar o Lindy Hop”. Desconhecendo este tipo de
dança, a nota explica-me que é a “dança que esteve na origem do swing e que remonta ao Salão de Baile de
Savoy, em Harlem, 1926”. Ora, através da contexto e da frase, o leitor sabe que
Lindy Hop é uma dança e o género da
mesma é irrelevante para a compreensão da história. Já para não referir que o
leitor não deve conhecer a referência ao Salão de Baile de Savoy, o que faz com
a nota desajude mais do que ajude.
Logo na página seguinte temos a expressão “huevos rancheros” com a nota “Em
espanhol no original: ovos mexidos”. Até aqui, nada a comentar, uma vez que já
tinha percebido que o tradutor era amante de notas de rodapé. No entanto, logo
na página 68, surge a palavra “cojones”
com a nota “Em espanhol no original”, sem direito a tradução para Português.
Poder-se-ia pensar que esta palavra não foi traduzida por ter uma intenção mais
ofensiva, mas a nota “Em espanhol no original” sem tradução aparece
recorrentemente ao longo do texto.
Outra nota de rodapé recorrente é que explica referências a
personalidades. “FDR” é “Franklin Delano Roosevelt (1882-1945), presidente dos
Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial” e George S. Patton é “General
norte-americano (1885-1945) que combateu na Segunda Guerra Mundial (…)”, mas
Fatty Arbuckle é simplesmente uma “Estrela do cinema mudo”, sem direito a mais
pormenores.
Por fim, temos também as notas que explicam expressões que
em nada contribuem para a história, como a explicação de “royal flush” e “Hansel e Gretel”.
Apesar das 67 notas de rodapé num livro de 365 páginas, a
nota que a mim fez falta na leitura, não existe. A expressão “cão da arma”
surge mais do que uma vez e eu nunca a tinha visto ou ouvido antes e penso que
a maioria das pessoas também não conhecerão a que se refere e esta sim era um
boa oportunidade para usar a nota.
Para além destas notas, a tradução tem problemas na
conjugação verbal em expressões como “por isso espero que gostassem da ovação”
e “Como não aparecesse ninguém ao fim de cinco segundos, experimentei o puxador”.
Compreendo que há verbos em Inglês que não têm correspondente direto em
Português, mas este é também um problema de revisão e fácil de perceber que
está errado.
Um romance é um livro para ser lido de forma fluída para
poder ser apreciado e bem desfrutado. Uma ou duas notas de rodapé, se justificadas,
fazem todo o sentido e podem ser uma grande ajuda para o leitor, mas não devem
ser usadas em demasia. O facto de ter três notas na mesma página quebra a
leitura e o raciocínio do leitor. Gostei bastante da história, mas as notas de
rodapé constantes e os erros de conjugação óbvios fizeram-me perder a vontade e
o entusiasmo.

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