Livros - Porquê pagar mais?
Já
repararam naquelas livrarias pequenas e escondidas que existem pela cidade? E
já repararam que muitas delas estão a ser obrigadas a fechar? Se não repararam,
elas existem e estão realmente a fechar e eu quero que saibam o porquê.
No
semestre passado, como trabalho final de uma cadeira, entrevistei um senhor que
tem uma livraria numa cidade alentejana, a única da cidade. Graças a esta
entrevista, aprendi sobre um lado totalmente diferente e sombrio do mundo
literário que desconhecia. O mundo editorial envolve política que tudo distorce
e que obriga estas pequenas empresas a lutar pela sua sobrevivência.
Para
evitar a concorrência desleal, o Governo criou a Lei do Preço Fixo que diz que
os livros têm de ser vendidos todos ao mesmo preço em todas as superfícies, mas
não é bem isso que acontece. As grandes superfícies, como a Bertrand, a FNAC ou
os supermercados, exigem descontos de 45 a 60% de desconto quando compram os
livros às editoras e, assim, é fácil para eles fazer 10 ou 20% de desconto aos
clientes, porque nunca saem a perder. No entanto, estes descontos obrigam as
editoras a subir os seus preços iniciais ou então não têm lucro nem para pagar
ao escritor. Por isso, o cliente acaba sempre por pagar mais
do que devia, apesar do desconto – não se esqueçam que a edição de um livro
envolve o escritor, o editor, o tradutor, o designer, o revisor, o publicista,
as despesas da editora, a comissão do livreiro, as despesas da livraria, …
A
realidade numa livraria de bairro é diferente porque as editoras apenas lhes
fazem 30% de desconto. Ora, com apenas 30% de desconto por parte da editora, se
os livreiros fizessem descontos aos clientes, não ganhavam para o gasto como se
costuma dizer. Muitas delas têm de acrescentar zonas de restauração e
esplanadas para se poderem manter abertas.
Agora
surge um problema: porquê pagar mais uns
cêntimos numa destas livrarias quando podemos pagar menos pelo mesmo livro
noutro sítio?
Tenho
de dizer que compreendo este ponto de vista. Por vezes estamos apertados de
dinheiro ou é mais fácil ir a uma livraria num centro comercial que está aberta
até mais tarde e que costuma ter preços “em conta”. Mas este hábito traz
problemas a longo prazo. Vamos ver:
1. Estes sítios escolhem livros que “vendem”, na maioria dos
casos só têm os livros comerciais. Isto faz com que a escolha para o consumidor
seja afunilada e que os livros à disposição passem a ter menos qualidade
literária;
2. Os descontos das editoras às grandes superfícies, como dito
acima, fazem o preço inicial dos livros subir;
3. As pequenas editoras que estão a tentar fazer-se notar e
aumentar as suas vendas não têm lugar nestas superfícies porque não são
“rentáveis”.
Por
outro lado, as pequenas livrarias são o sítio perfeito para estas pequenas
editoras, pois não cobram preços exorbitantes nem pedem descontos irreais para
vender estes livros. Cada livraria independente vende aquilo que considera
melhor, não só para os seus clientes, mas também pelo seu gosto pessoal. E a
maior vantagem de visitar uma destas livrarias é o atendimento personalizado.
Enquanto na Bertrand andam atrás de nós feitos baratas tontas e na FNAC nem vêem
que existimos, numa livraria pequena, o livreiro tem todo o gosto em dar-nos o
nosso espaço ou a ajudar-nos a escolher um dos seus livros, conforme a
preferência do cliente. Confesso que sou uma daquelas clientes que não gosta de
ser incomodada pelos funcionários, mas adorei os livros que o livreiro que
entrevistei (já desvendo a sua identidade) me aconselhou. Foram livros dos
quais não tinha ouvido falar, completamente fora da minha zona de conforto, mas
que acabei por adorar e por devorar em tempo recorde.
Infelizmente,
as pequenas livrarias estão a fechar porque as pessoas preferem comprar os seus
livros em plataformas online ou nos
centros comerciais e porque lhes são cobrados preços demasiado elevados por
livros que às superfícies que não precisam de ajudas, quase são dados. Eu
espero que estas pequenas livrarias não desapareçam por completo, porque é
sempre bom ler um livro que não seja o “da moda” ou que seja fora do normal e
isso é algo difícil de encontrar numa FNAC.
Quero
só despedir-me dando um abraço gigante ao senhor Joaquim, o livreiro de Sines,
que luta pela sobrevivência. Um livreiro que teve de começar a vender cafés e
refeições na sua livraria mas que já ganhou o prémio “Livraria Preferida de
Portugal” em 2015 e 2016, ficando em 2º lugar em 2017 e o prémio de “Melhor
Atendimento” desde 2014 até ao presente ano. O Sr. Joaquim abriu-me os olhos
para o panorama do mundo literário e dá os melhores conselhos sobre livros,
para além da sua enorme simpatia e paciência. Espero que a A das Artes se
mantenha aberta e que vença todas as adversidades!

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